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Momento Desapego: do Guarda-roupas ao Coração

“O guarda-roupas dessa menina é uma bagunça, uma vergonha! Em qualquer hora dessas, eu vou entrar no quarto dela, abrir aquele bendito e pôr tudo pra fora!”. Era assim que a minha mãe, mais ou menos a cada seis meses, anunciava para toda a nossa família - e, também, para as visitas que eu mal conhecia - que eu era uma adolescente desorganizada e preguiçosa. Não nego: eu morria de preguiça de arrumar o meu guarda-roupas. Na verdade, ainda hoje eu enrolo e enrolo até reconhecer que realmente não dá mais para escapar. Em minha defesa, eu tenho rinite alérgica desde sempre, então, a cada sacudida de peça, eu espirro três vezes no mínimo – e eu também acho que dobrar e empilhar é algo que demanda muito tempo, coisa de que não disponho muito desde que virei adulta.

Além da ameaça, a minha mãe utilizava outra estratégia para me convencer a arrumar o meu guarda-roupas: se eu o fizesse com capricho, desfazendo-me de todas as peças que não usaria mais, sobraria mais espaço nos compartimentos e, assim, ela me compraria roupas novas. Às vezes, quando a blusinha que eu havia visto na vitrine falava mais alto que a procrastinação, funcionava.

Então, era assim: em uma determinada tarde de um dia tedioso, sem grandes distrações, motivada pela perda da paciência da minha mãe, eu colocava tudo a baixo: camisetas, vestidos, calças, saias... E recolocava no guarda-roupas somente as peças que provavelmente eu usaria de novo. Aquelas que já não me serviam mais ou que estavam “fora de moda”, eu depositava em uma sacola grande e encaminhava para a doação. Desapegava.

As roupas que não servem mais eram encaminhadas para doação.

Se aplicarmos essa prática de maneira metafórica às relações, às pessoas que guardamos do lado de dentro de nós – o nosso “guarda-roupas interno”, vulgo coração –, até que faz sentido. Afinal, ao que parece, vivemos, hoje, a “era do desapego”, em que imagens, legendas e textões publicados diariamente nas redes sociais ordenam: “desapegue!”. Isso, inicialmente, soa libertador, não é?! Não serve mais? Passe para frente. Não gosta mais? Ponha fora! Não acha mais bonito? Livre-se dela(e)! E aí, quando finalmente tomamos coragem e desapegamos, deixamos ir, a sensação imediata é de alívio, leveza, paz... Sentimos que zeramos a vida, que é hora de recomeço, de pessoas novas.

Mas, recentemente, enquanto eu arrumava o meu guarda-roupas externo – agora, motivada única e exclusivamente pela minha perda de paciência –, eu descobri uma coisa. Era um moletom velho, muito velho, do qual eu nem me recordava mais. Em frente ao espelho e em meio aos montes de roupas espalhados pelo chão do meu quarto, eu vesti o tal moletom e senti como se um pedaço de mim que havia ficado escondido debaixo de tanta novidade tivesse sido redescoberto. O tecido do moletom, tão gasto, parecia conhecer as formas do meu corpo, ainda que este já não seja mais o mesmo de quando eu o usava com frequência; o cheiro, que incrivelmente permanecia nele, lembrou-me de uma época inteira...

Ainda enquanto me olhava com o moletom, pensei em como nós, inspirados na atual cultura do desapego, descartamos pessoas que aparentemente não nos servem mais, não combinam mais com o que somos, não cabem mais no nosso momento de vida. Pessoas que por um bom tempo vivenciaram conosco os dias de luta, dias de glória, mas que porque, de alguma maneira, não corresponderam a uma expectativa que criamos, foram para a sacola grande da doação.

A salvo os relacionamentos tóxicos, que prejudicam a nossa saúde emocional – como uma roupa apertada demais, desconfortável –, as pessoas que um dia toparam dividir um tempo conosco merecem um cantinho no nosso guarda-roupas, no nosso coração, afinal, a moda acontece em vai-e-vem, e a vida parece imitar esse movimento.

Em um contexto que nos estimula diariamente a abandonar o que não nos convém, ressignificar uma relação, uma pessoa, uma roupa, pode ser, além de revolucionário, lindo.

Texto: Indianara Machado